sexta-feira, 18 de novembro de 2011

política muda

Senhor primeiro ministro sentado no lugar mais central de todo o parlamento, discursando pelos gastos lábios e gesticulando ferozmente para a bancada, porém nada se ouve. Repete inúmeras vezes o gesto que se assemelha ao erguer de um revolver: afasta nitidamente o polegar do indicador, e eleva este acima dos ombros. Na bancada ouvem-se protestos mudos, pequenos apartes taciturnos. A oposição demonstra desrespeito, desprezo e desdém: a esquerda pede mais, o centro mostra-se ultrajado e a direita pede o que a esquerda deseja. Porém: não se ouve uma palavra. É a religião, é a economia, são as finanças, são os protestos e manifestações. A deputada grita, mas ninguém a ouve. O ministro faz e não fez. São papéis a voar, bandeiras de ontem que dançam ao sabor do vento; agora arrumadas. Tudo isto são sombras de uma revolução, quando Abril esperava um reflexo.

sábado, 7 de maio de 2011

la photo


O extasiante som da forte música electrónica que se confunde com meros barulhos atordoantes junto aos tímpanos, com a atordoante ajuda dos 3 litros de hendricks gin e da grande quantidade droga que os 4 jovens fumaram durante toda a festa deixou-os na inocência da breve anestesia que os fazia levitar. Loucos, gritam manifestando o seu completo descontrolo. Fecham os olhos tentando fugir às breves e ofuscantes luzes que percorrem a pista e que lhes dilatam repentinamente as pupilas. Ouvem-se copos a partir; vozes histéricas procuram auxílio para um mortal que cai no chão e, simultaneamente, revira os olhos e perde a voz. A música pára na sequência da fuga do DJ por motivos desconhecidos. Os 4 imortais, exaustos, saem do local após mil atropelos.
Já num salão abandonado os jovens procuram descansar. John adopta uma postura séria, quase imparcial ao que acontecera há minutos atrás. Ignora tudo aquilo que viveram, despindo a sua postura extrovertida que lhe foi útil durante todo o frenesim. Ressaca apaticamente. Mike, o senhor infantil, ri-se inocentemente monologando acerca das suas aspirações. O álcool ainda lhe pesa, mas não o preocupa; sente somente algum frio que está a ser curando com uma manta velha encontrada no local. Pete, a personagem que transporta em si mais carisma, visível nos seus olhos, sorriso e gestos invulgares, está focado num pensamento omitido pelo silêncio que concede aos restantes. Sente calor e parece não estar numa posição totalmente confortante. Lois monologa em paralelo com Mike, igorando-se mutuamente. Lois queixa-se do modo como se sente e fala dos exageros da tão divertida noite.
Após momentos nos quais os jovens comunicavam entre olhares, todos eles fecham os olhos. Os imortais contrariam a sua Natureza enquanto uma fuga de gás se apodera dos seus pulmões.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

quelle merde je vais sentir?

Quanto tocas em algodão que sentes? Certamente algo macio, volumoso, nem quente nem frio. Se olhares vês que é branco, limpo e disforme. E então?

ao que me comprometo

O objectivo será criar um dia. O dia que será o fim de todos os outros. A questão coloca-se quando me interrogo: começo pelo fim ou pelo início? Quando o dia se inicia na inocência de ser só mais um; ou quando termina, numa explosão, afogado no oceano, surdo num grito desesperante?! Esse dia nunca existirá. Vai mergulhar numa dimensão cromática demasiado ofuscante para ser real. Só o existirá exactamente no fim de todos os dias!

Vou começar pelo meio! Quando as flores dançam ao som do vento, num dia infeliz.

O som será meramente instrumental. Relacionar-se-á com toda a minha visão daquilo que é visto. Génios e poetas falarão se eu lhes

conceder autorização. As imagens nunca serão imóveis. O dia será desprovido de fotografia.